
Bem, a partir disso, tudo o que me recordo são imagens de lembranças recortadas, que se amontoam na memória e assim com o passar dos anos até que se formassem as lembranças mais claras e juvenis, inerentes a formação inicial do meu caráter, entre outras coisas. Mas ainda hj é muito vigoroso saber que minha estória é de superação desde que por aqui cheguei ou melhor: até pra CONSEGUIR chegar até aqui.
Minha falecida vó... sempre me chamava de "sem vergonha"; os antigos, ao menos do tempo dela, tinham uma forma de tratamento peculiar do tipo se vc quer chamar alguém de forte é melhor chamá-lo "vazo ruim", eu sei: -um tanto questionável se posto ante as formas que pessoas mais eloqüentes utilizam. Minha vó era rústica sim e colocova os netos pra correr de pavor quando apontava vindo na esquina pra uma visita as filhas casadas...mas isso é assunto pra mais adiante.
Muitas das vezes que minha avó abria uma sessão nostalgia referente a mim, antes me pedia que fosse a sua casa fazer algum serviço rsrsrs mas sempre dividia suas memórias no final da lida acompanhadas com alguma igüaria que ela só permitia saborear naqueles têrmos (trabalho):
-Ê sem vergonha! - ela dava uma risada que não dá pra descrever mas seria algo entre "estou velha e tô feliz" e "que se danem os meus dentes" rsrrs -Velha Isabel; que saudade!!!
Mas ela então emendava:
-Tu sabia, safado, que tua primeira mamadeira foi eu que fiz??!!---dava mais uma sequencia daquela silenciosa gargalhada que lhe impulssionava todo o corpo pra cima e pra baixo em sua cadeira de balanço e arrematava: -Tua mãe num tinha leite e teu pai num tinha nenhum tostão,aquele nanico sem vergonha, então eu punha farinha de trigo com água pra ferver e fui mexendo até engrossar...te dei aquilo e,tu, chega se fartô...ficô quieto e dormiu,que nem um anjo.
Minha avó sempre me contava essas estórias, mas claro, somente depois que eu cresci, quando chegamos a um reconhecimento natural de que o tempo das surras e puxões de orelha havia passado e que mesmo que ela continuasse sem me dar nenhuma confiança eu acabaria arrancando sua empatia no "talento" dizendo algo do tipo: -Vó, a senhora tá bonita hj vó!...dá um sorrisão pro seu neto preferido dá..."aquele" sorriso vó!!- Antes de se escangalhar de rir a velhinha disparava:
-Tu nem é meu preferido,discarado...num vale nada!-
rsrsrsrss.Sua benção vó.